Lindy Silva Revela os Desafios de Empreender em Portugal Sendo Imigrante

Empreender num novo país significa muito mais do que abrir uma empresa. Significa reconstruir uma trajetória, conquistar credibilidade, compreender uma nova cultura e transformar desafios diários em oportunidades de crescimento. Para milhares de brasileiros que escolheram Portugal para recomeçar, essa realidade faz parte da rotina, exigindo coragem, preparação e uma enorme capacidade de adaptação.

Nesta entrevista exclusiva para a Leading Ladies Magazine, publicação dedicada ao universo do empreendedorismo feminino, conversamos com Lindy Silva, empreendedora brasileira residente em Portugal, que partilha uma visão honesta sobre os desafios e as conquistas de quem decide criar o próprio negócio longe do país de origem.

Ao longo da conversa, Lindy aborda temas fundamentais como burocracia, integração cultural, networking, reputação profissional, inteligência emocional e a importância da ética na construção de uma marca sólida. Mais do que relatar a sua experiência pessoal, ela oferece orientações práticas para brasileiros que desejam empreender em Portugal de forma sustentável e consciente.

A sua história demonstra que o sucesso empresarial não depende apenas de capital financeiro, mas da capacidade de aprender continuamente, respeitar a cultura local e manter a autenticidade diante das dificuldades. Um testemunho inspirador que reforça como competência, perseverança e propósito podem transformar o desafio da imigração numa trajetória de realização profissional e impacto positivo para toda a comunidade.

1.- Lindy, empreender já é um desafio para qualquer pessoa. Na sua opinião, quais obstáculos surgem quando o empreendedor também é um imigrante que precisa construir credibilidade num novo país?

O maior desafio é começar do zero. Como imigrante, ninguém conhece o nosso histórico, a nossa experiência ou a qualidade do nosso trabalho. É preciso conquistar confiança diariamente, compreender a cultura local, adaptar-se às regras do mercado e, muitas vezes, lidar com preconceitos. A credibilidade não é imediata; ela é construída com consistência, profissionalismo e resultados.

2.- Muitos empreendedores afirmam que o maior investimento não é financeiro, mas emocional. Que tipo de resiliência um imigrante precisa desenvolver para continuar acreditando no próprio projeto?

É necessário desenvolver inteligência emocional, paciência e perseverança. Haverá momentos de dúvida, rejeições e dificuldades, mas é importante manter o foco no propósito. A resiliência significa continuar avançando mesmo quando os resultados demoram a aparecer.

3.- Em que momento um sonho deixa de ser apenas uma ideia e passa a transformar-se numa empresa com propósito?

Quando deixa de ser apenas um desejo e passa a ser acompanhado por um plano, disciplina e compromisso. Uma empresa com propósito nasce quando o empreendedor entende que o seu negócio não existe apenas para gerar lucro, mas também para resolver problemas, criar valor e impactar positivamente a vida das pessoas.

4.- Na sua experiência, quais são os maiores desafios burocráticos que um empreendedor estrangeiro encontra em Portugal e que poderiam ser simplificados para incentivar mais inovação?

A burocracia ainda pode ser complexa para quem chega sem conhecer o sistema. Existem processos administrativos demorados, exigências documentais e diferenças legais que podem gerar insegurança. Mais informação acessível, processos digitais e apoio especializado para empreendedores estrangeiros fariam uma grande diferença.

5.- O empreendedor imigrante sente, muitas vezes, a necessidade de provar constantemente a sua competência. Como evitar que essa pressão afete a criatividade e a confiança?

É importante lembrar que ninguém precisa provar o seu valor todos os dias. A melhor resposta é a qualidade do trabalho. Quando confiamos na nossa preparação e nos nossos valores, conseguimos transformar essa pressão em motivação para evoluir, sem perder a autenticidade.

6.- Na sua visão, que características distinguem um empreendedor que apenas sobrevive daquele que consegue crescer e consolidar o seu negócio em Portugal?

Quem cresce investe continuamente em conhecimento, adapta-se ao mercado, planeia financeiramente e constrói relações sólidas. Não basta trabalhar muito; é preciso trabalhar com estratégia, visão de longo prazo e capacidade de inovação.

7.- A adaptação cultural também faz parte da gestão de um negócio. Como compreender os hábitos, a forma de comunicar e a cultura empresarial portuguesa pode influenciar diretamente o sucesso de um empreendimento?

Compreender a cultura local facilita a comunicação, fortalece relações de confiança e evita mal-entendidos. Respeitar os costumes portugueses não significa perder a própria identidade, mas aprender a comunicar de forma mais eficaz com clientes, parceiros e instituições.

8.- O networking é frequentemente apontado como um dos pilares do crescimento empresarial. O quão importante é criar relações de confiança para quem está a começar do zero num país diferente?

É fundamental. Muitas oportunidades surgem através das pessoas. Construir uma rede de contactos baseada na confiança abre portas para parcerias, recomendações e novos clientes. O networking vai muito além de trocar cartões; trata-se de construir relações genuínas.

9.- Portugal tem-se tornado um destino atrativo para empreendedores internacionais. Que oportunidades ainda permanecem pouco exploradas pelos imigrantes?

Ainda existem oportunidades nas áreas da inovação, tecnologia, sustentabilidade, economia digital, formação profissional, saúde, bem-estar e serviços especializados. Muitos imigrantes também podem criar negócios que aproximem mercados internacionais de Portugal.

10.- O empreendedorismo exige decisões difíceis e capacidade de assumir riscos. Qual foi a decisão mais desafiadora que tomou desde que decidiu construir a sua trajetória em Portugal?

A decisão mais desafiadora foi acreditar em mim e investir num projeto sem garantias de sucesso. Sair da zona de conforto exige coragem, mas foi essa decisão que abriu espaço para o meu crescimento pessoal e profissional.

11.- Muitas pequenas empresas encerram nos primeiros anos de atividade. Que erros acredita que um empreendedor imigrante deve evitar para aumentar as probabilidades de sucesso?

Evitar começar sem planeamento, ignorar a legislação, misturar finanças pessoais com as da empresa, subestimar a importância do marketing e deixar de investir na própria formação. Também é essencial conhecer profundamente o mercado antes de tomar decisões.

12.- Qual o papel da ética, da transparência e do profissionalismo na construção de uma reputação sólida, especialmente quando se é estrangeiro?

São pilares fundamentais. A reputação é construída ao longo do tempo e pode ser perdida rapidamente. Ética, honestidade, transparência e compromisso criam confiança, e confiança é um dos maiores patrimónios de qualquer empreendedor.

13.- Na sua opinião, como as instituições públicas e privadas poderiam colaborar para tornar Portugal um ambiente ainda mais favorável ao empreendedorismo de imigrantes?

Criando programas de orientação, simplificando processos administrativos, promovendo acesso à informação, incentivando mentorias e facilitando o acesso ao financiamento. Quanto maior for a integração, maior será a contribuição dos empreendedores para a economia.

14.- O sucesso empresarial também pode gerar impacto social. Como acredita que os empreendedores estrangeiros podem contribuir para o desenvolvimento económico, cultural e humano de Portugal?

Os empreendedores estrangeiros geram emprego, pagam impostos, trazem novas ideias, promovem diversidade cultural e fortalecem relações internacionais. Além disso, contribuem para uma sociedade mais inovadora, inclusiva e dinâmica.

15.- Se pudesse reunir numa mesma sala centenas de brasileiros que sonham abrir um negócio em Portugal, qual seria o conselho mais importante que gostaria de deixar antes de iniciarem essa jornada?

Não venham apenas com um sonho; venham preparados. Estudem o mercado, conheçam a legislação, organizem as finanças e estejam dispostos a aprender continuamente. O sucesso não acontece por acaso; é resultado de preparação, persistência e trabalho consistente.

16.- Depois de tudo o que viveu como empreendedora imigrante, que legado espera deixar para demonstrar que coragem, competência e perseverança podem transformar desafios em oportunidades e inspirar uma nova geração de empreendedores?

Espero deixar o exemplo de que é possível recomeçar em qualquer lugar quando se trabalha com honestidade, competência e determinação. Quero ser lembrada não apenas pelos negócios que construí, mas pelo impacto positivo que consegui gerar na vida das pessoas. Se a minha trajetória inspirar alguém a acreditar nos seus sonhos e a persistir perante as dificuldades, então terei cumprido a minha missão.

 

 

 

Interview with Lindiane Silva by Jaime William Mostacero Baca

Jaime William & Leading Ladies – Lindiane Silva