Lindy Silva Revela os Desafios de Empreender em Portugal Sendo Imigrante

1.- Lindy, empreender já é um desafio para qualquer pessoa. Na sua opinião, quais obstáculos surgem quando o empreendedor também é um imigrante que precisa construir credibilidade num novo país?
O maior desafio é começar do zero. Como imigrante, ninguém conhece o nosso histórico, a nossa experiência ou a qualidade do nosso trabalho. É preciso conquistar confiança diariamente, compreender a cultura local, adaptar-se às regras do mercado e, muitas vezes, lidar com preconceitos. A credibilidade não é imediata; ela é construída com consistência, profissionalismo e resultados.
2.- Muitos empreendedores afirmam que o maior investimento não é financeiro, mas emocional. Que tipo de resiliência um imigrante precisa desenvolver para continuar acreditando no próprio projeto?
É necessário desenvolver inteligência emocional, paciência e perseverança. Haverá momentos de dúvida, rejeições e dificuldades, mas é importante manter o foco no propósito. A resiliência significa continuar avançando mesmo quando os resultados demoram a aparecer.
3.- Em que momento um sonho deixa de ser apenas uma ideia e passa a transformar-se numa empresa com propósito?
Quando deixa de ser apenas um desejo e passa a ser acompanhado por um plano, disciplina e compromisso. Uma empresa com propósito nasce quando o empreendedor entende que o seu negócio não existe apenas para gerar lucro, mas também para resolver problemas, criar valor e impactar positivamente a vida das pessoas.
4.- Na sua experiência, quais são os maiores desafios burocráticos que um empreendedor estrangeiro encontra em Portugal e que poderiam ser simplificados para incentivar mais inovação?
A burocracia ainda pode ser complexa para quem chega sem conhecer o sistema. Existem processos administrativos demorados, exigências documentais e diferenças legais que podem gerar insegurança. Mais informação acessível, processos digitais e apoio especializado para empreendedores estrangeiros fariam uma grande diferença.

5.- O empreendedor imigrante sente, muitas vezes, a necessidade de provar constantemente a sua competência. Como evitar que essa pressão afete a criatividade e a confiança?
É importante lembrar que ninguém precisa provar o seu valor todos os dias. A melhor resposta é a qualidade do trabalho. Quando confiamos na nossa preparação e nos nossos valores, conseguimos transformar essa pressão em motivação para evoluir, sem perder a autenticidade.
6.- Na sua visão, que características distinguem um empreendedor que apenas sobrevive daquele que consegue crescer e consolidar o seu negócio em Portugal?
Quem cresce investe continuamente em conhecimento, adapta-se ao mercado, planeia financeiramente e constrói relações sólidas. Não basta trabalhar muito; é preciso trabalhar com estratégia, visão de longo prazo e capacidade de inovação.
7.- A adaptação cultural também faz parte da gestão de um negócio. Como compreender os hábitos, a forma de comunicar e a cultura empresarial portuguesa pode influenciar diretamente o sucesso de um empreendimento?
Compreender a cultura local facilita a comunicação, fortalece relações de confiança e evita mal-entendidos. Respeitar os costumes portugueses não significa perder a própria identidade, mas aprender a comunicar de forma mais eficaz com clientes, parceiros e instituições.
8.- O networking é frequentemente apontado como um dos pilares do crescimento empresarial. O quão importante é criar relações de confiança para quem está a começar do zero num país diferente?
É fundamental. Muitas oportunidades surgem através das pessoas. Construir uma rede de contactos baseada na confiança abre portas para parcerias, recomendações e novos clientes. O networking vai muito além de trocar cartões; trata-se de construir relações genuínas.

9.- Portugal tem-se tornado um destino atrativo para empreendedores internacionais. Que oportunidades ainda permanecem pouco exploradas pelos imigrantes?
Ainda existem oportunidades nas áreas da inovação, tecnologia, sustentabilidade, economia digital, formação profissional, saúde, bem-estar e serviços especializados. Muitos imigrantes também podem criar negócios que aproximem mercados internacionais de Portugal.
10.- O empreendedorismo exige decisões difíceis e capacidade de assumir riscos. Qual foi a decisão mais desafiadora que tomou desde que decidiu construir a sua trajetória em Portugal?
A decisão mais desafiadora foi acreditar em mim e investir num projeto sem garantias de sucesso. Sair da zona de conforto exige coragem, mas foi essa decisão que abriu espaço para o meu crescimento pessoal e profissional.
11.- Muitas pequenas empresas encerram nos primeiros anos de atividade. Que erros acredita que um empreendedor imigrante deve evitar para aumentar as probabilidades de sucesso?
Evitar começar sem planeamento, ignorar a legislação, misturar finanças pessoais com as da empresa, subestimar a importância do marketing e deixar de investir na própria formação. Também é essencial conhecer profundamente o mercado antes de tomar decisões.
12.- Qual o papel da ética, da transparência e do profissionalismo na construção de uma reputação sólida, especialmente quando se é estrangeiro?
São pilares fundamentais. A reputação é construída ao longo do tempo e pode ser perdida rapidamente. Ética, honestidade, transparência e compromisso criam confiança, e confiança é um dos maiores patrimónios de qualquer empreendedor.

13.- Na sua opinião, como as instituições públicas e privadas poderiam colaborar para tornar Portugal um ambiente ainda mais favorável ao empreendedorismo de imigrantes?
Criando programas de orientação, simplificando processos administrativos, promovendo acesso à informação, incentivando mentorias e facilitando o acesso ao financiamento. Quanto maior for a integração, maior será a contribuição dos empreendedores para a economia.
14.- O sucesso empresarial também pode gerar impacto social. Como acredita que os empreendedores estrangeiros podem contribuir para o desenvolvimento económico, cultural e humano de Portugal?
Os empreendedores estrangeiros geram emprego, pagam impostos, trazem novas ideias, promovem diversidade cultural e fortalecem relações internacionais. Além disso, contribuem para uma sociedade mais inovadora, inclusiva e dinâmica.
15.- Se pudesse reunir numa mesma sala centenas de brasileiros que sonham abrir um negócio em Portugal, qual seria o conselho mais importante que gostaria de deixar antes de iniciarem essa jornada?
Não venham apenas com um sonho; venham preparados. Estudem o mercado, conheçam a legislação, organizem as finanças e estejam dispostos a aprender continuamente. O sucesso não acontece por acaso; é resultado de preparação, persistência e trabalho consistente.
16.- Depois de tudo o que viveu como empreendedora imigrante, que legado espera deixar para demonstrar que coragem, competência e perseverança podem transformar desafios em oportunidades e inspirar uma nova geração de empreendedores?
Espero deixar o exemplo de que é possível recomeçar em qualquer lugar quando se trabalha com honestidade, competência e determinação. Quero ser lembrada não apenas pelos negócios que construí, mas pelo impacto positivo que consegui gerar na vida das pessoas. Se a minha trajetória inspirar alguém a acreditar nos seus sonhos e a persistir perante as dificuldades, então terei cumprido a minha missão.

Interview with Lindiane Silva by Jaime William Mostacero Baca
Jaime William & Leading Ladies – Lindiane Silva
